sábado, 30 de julho de 2011

Sorrindo lírios

Só porque esse texto me encanta!

Ter ou não ter namorado
Carlos Drummond de Andrade

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos.
Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.


domingo, 24 de julho de 2011

Intensidade

Aparece do nada. E quando eu menos percebo estou me importando demais.

Mas, da mesma forma, desaparece do nada. E eu percebo que não faz a mínima diferença.


Bom, neh!?


Laís Prudente de Andrade
Julho/2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diálogo qualquer, num lugar qualquer

- Hoje não.
- Pq?
- Cansei de correr riscos que não sei se posso suportar.
- Eu sou um risco?
- Cada vez que eu digo que vou embora quando tenho vontade de ficar é um risco.
- Pois é... fica.
- O risco é ainda maior.
- Mas afinal o que vc ta arriscando?
- Todo dia com você eu corro o risco de me iludir...de gostar de você. E pior ainda, o risco de ficar e ouvir que isso não deveria ter acontecido.
- Mas ta acontecendo.
- Mas você tem a mania de mas... E a qualquer momento eu ouço que "foi bom, mas", que "gosta de mim, mas", que você "queria, mas", que você "não queria, mas"...
E foi embora, com o "mas" na cabeça, as lágrimas nos olhos e a certeza de que queria novos riscos, não esse.

Mal sabia que de riscos assim não se foge...


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Minha fantasia (sua).

Fantasias. É isso o que todos nós somos. Fantasias dos outros.
Somos diferentes pra cada pessoa, pra cada pensamento, pra cada olhar. Porque nós somos seres fantasiosos.
Você pode ser a pessoa especial daquele dia de inverno, pode ser o rolo de "uma vida" que nunca se resolveu, pode ser a pessoa que parecia perfeita pra se relacionar, pode ser o encontro de uma balada, pode ser um nome, ou nem isso, pode ser a inspiração pra uma música, a inspiração pra um sonho.
Você pode ser e você é. Tudo isso e muito mais. Um pouco pra cada pessoa em quem você tocou, com quem você conversou, por quem você passou.
Vivemos fantasiando sobre as pessoas, sobre os momentos e sobre sentimentos. Transformamos a realidade e criamos tudo isso de uma forma nova dentro de nós. E às vezes você percebe a fantasia pela qual se apaixonou. Às vezes não.

Fantasias fazem bem. Mas não se engane, são só fantasias.
Cuidado para não ser devastado ao descobrir.

Laís Prudente de Andrade
Julho/2011